quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2460. ( )

chove aí
chove aqui
essa água fina
abençoando os
desejos

insistente durante
o dia
querendo lavar
à força o mal
do mundo
essa chuva nos
encontra

se debruça em
cima de nós
cai em nossas
costas para
lhas aliviar
levemente
pesando o peso
de ser água

nosso encontro
possível carregado
pelas nuvens

nosso beijo suave
feito de
gotas miúdas

2459. Para que em 10 não pare

que o novo
venha a todos nós
como aquele nó que faltava
para alinhavar a costura

que se escreva mais
e se pense um tanto menos
e se sinta esse tanto que é mais
que se saiba e sinta pensar sentir
e sentir pensar

que se música plena
boa onda vibrada pelo ar
até tremer a alma

que se leia o que for bom
para saciar a fome
e que se coma o que for necessário
para que ninguém sofra

que se seja

que assim seja

que se beije
e se beija

que se ame e entre e adentre
e se deixe adentrar
e trema como música vibrada
que se goze

que se sue o que não alienar
que se estude o que ainda valorizar

que se goste e se gaste
se desgaste pelo tempo
deixe as erosões e intempéries gastar
deixe o rosto amofinar pela idade

que se envelheça

que se corpo
que se outro
que se todos
e todas que puder enfiar em si

que percorra o mundo e as vidas
e se deixe percorrer

que se corra para onde
e se pare pelo quando

que se necessite
que se precise

que queira e consiga
e convide quem quiser também
e compartilhe e não se ilhe
além do medido

que se desmeda
e se desemenda
e perca o medo de se cortar
e se colcha de retalhos quando precisar

que se seja

que assim seja

que não pare

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

2458. a possibilidade das palavras e do desejo

ok
para você,
ou por,
eu espero.
paro o movimento.
palavreio o
intento
e mesmo
me apresento:
senhor de impulsos,
de pulsões
ainda um tanto primitivas,
primo pela troca:
dou o impossível
e desejo
isso que toca
o ar junto à
respiração:
vida
posta mesmo
no que pode.

2457.

A justa medida do tempo
é uma veste de espera
vestido vermelho de lamê
bem ajustado
guardado no fundo do armário
ansiado aguardo para o
usufruto

tira-se de quando em quando
para uma postura ao sol
e retirar mofos e manchas

cuidado com carinho
embalado em plástico
admirado no momento em
que se vai procurar uma
saia diária
e suspirado todos os dias
sabendo que em algum
deles existirá a ocasião
em que o caiba.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

2456. Mapa para uma mina

saia de seu casulo
adentre um sol sertão
trafegue entre egos
siga até um olhar perdido
conte cinco passos
rumo à impossibilidade
se desoriente com o pôr-do-sol
ande rumo ao nascimento da lua
fuja léguas pelo ar
corra por linhas cálidas
quando uma lágrima brotar
é ali mesmo
cave fundo até encontrar
esse baú enterrado
abra-o somente quando
enfim o sorriso couber fácil
na sua cara

2455. saber cuidar

não pode ser mais da obsessão
tem que ser do contato
do tato
transpor a onda do imediato
do amor instantâneo
maturar as coisas
esperar
afagar com palavras elétricas
lembrar e querer

encontrar num sonho
ansiar a queda da distância
lançar-se de todo modo
esquecer-se um tanto
esperar

ela lá
eu cá
um dia onde

domingo, 27 de dezembro de 2009

2454.

eu te tiraria do marasmo
hastearia bandeiras
recuperaria a utopia
e a embalaria em frêmitos
lhe mordiscando as orelhas
mas acho que você gosta
mesmo é de chicotes
e vela derretida
ou cueca de couro
sei lá
essa agressividade desmedida
desmede até a vontade

2453. para alívios mediatos

desceu
sangue seu
sem gene meu
outro gemido sucedeu

2452. Paisagem de janela

O ouro preto
que brilhava
em todo o ar
pintava o centro
dentro do azul
daquele olhar.

2451. Dezembros

dias loucos e insuficientes
para se aprender o faltante
e arremessar o vindouro

dias de chuvas e de sóis
desse calor tão frio das manhãs
de pavor e esperança

dias verdes e noites azuis
esperas infinitas e carinhos
ansiosos e distantes

seres perambulando pelo
aconchego da piedade
e margeando alguma frustração

vontade de virar as páginas
de começar novos livros
pulando até o último parágrafo

dezembros podem enlouquecer
mas sempre levam o mundo
a chorar pelo novo

2450. Entradas

veio mesmo
naquele veio
de água de
cima da serra
que descia
dizendo que
vinha
e veio com
a brisa da
noite com a
permissão
de ir e vir
com a pulsão
de vida
veio e disse
que ia
percorre as
veias e aqui
eu vejo
que vaza
por todos os
poros

2449. perder palavras

as perco uma a uma
não tenho idéia de onde
foram dar as caras
no meio do caminho
podem ter ficado
no vale do encantamento
despedaçado
no desperdício da
água à face derramada
no tiro de uma arma
não-letal
no momento de puxar
o gatilho

foram ficando pela trilha
uma após a outra
algumas ficaram encontradas
no desencontro da partida
todas não me acompanham mais

2448.

um dia ainda encontro
uma mulher que tenha tesão
com coisas sutis
até lá sigo esse romance
torpe com a minha
própria mão

2447. Dormência

quase cretino
esse sono que
vem vindo
acaricia pálpebras
vai seduzindo
à cama
conduzindo
parece lânguido
só que é quase cretino

2446. Dolência

ai ai
um dia
a menos
outro
a mais
será que
náufrago
que estou
ainda
encontro
um cais
ou ficarei
boiando
nesse mar
demais?

2445. Prenúncio

o fim não virá em 2012...
o fim está desde
100.000 anos antes do presente
quando um vírus
mamífero resolveu
perambular pelo mundo

só a faísca de um fim
nessa fogueira eterna
que é a idade do céu

2444. Do luso encontro tupinambá

A luz feita veio de velas vibrantes pelo vento
vindas de rincões distantes de além-mar
a sinuosidade do mar lumiava
o bege mareado do cânhamo
por esse sol de equador ardente
imenso uba reluzente chegante
de paragens ocidentes
seres em fedentina ditos deuses
e eles aqui no ritmo de uma cultura
que se sente natureza
no balanço de canoas e redes
e rezas e cantos e paricás
senhores dos reinados dos sonhos
antropofágicos mágicos da guerra

Encontro de morte e de genes
selando para o agora o ímpeto de mar
ao movimento de selva
mudando a posse o título e o nome
criando à força a herança de quem
hoje é brasil

2443.

amor não é

é nada:
não-ser

amar é
– paradoxal –
a ação de
não ser

quando eu amo
não sou

no amar
não se é

armadilha
existencial
amor tenta

mas não é

2442. Como um cão

gosto tanto dos gatos
mas acabo sendo como
um cão
me apego fácil
me entrego inteiro
abano o rabo e olho com
cara de pidão
espero um carinho
todo o tempo
e ainda fico em guarda
de plantão

2441.

ainda não acredito nessa estória
de amor à primeira vista
creio sim em tesão ao primeiro olhar

2440. é possível amar (?)

quase sempre é mais possível
só amar o impossível
o não tocável
a distância

com a distância
você não discute
só anseia

com o impossível
você não se aflige
só aceita

com o intocável
você não regateia
só ama

2439. skate

saudade de uma ladeira
até de capotar numa ribanceira
ter quatro rodas abaixo dos pés
e uma prancha de madeira
descer corrimão de escadaria
falar um monte de besteira
sentir o vento na cara
grudar no baú na rabeira
passear por carros de esgueira...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

2438. Produjazzido

Num acidente
descobri o que o
jazz fazz em nóss
deixacid tudo
soulsibilante
coolericamente
fusionfreecado
viajamte
bebopipocado
nu swing
desmoothrado

2437. Quentes equadores

nessa faixa do planeta
a gente faz por onde
e com a dança alcança
o pra lá de mais longe

2436.

Eu amo as poetas
as Ruizes ruins
as Meireles melódicas
as Hilsts ríspidas
as Prados paragens
as Cs solitárias
as Medeiros maneiras
as Coralinas coradas
as Schmaltzes amantes
as Savarys selváticas
as Ferrazes azuis

as amo

asmaticamente
todas me tirando todo o ar.

2435. Urgente

adentrando minha nova morada
portas abertas ao bom do mundo
entra-me como primeira mensagem
um afago tão quisto e preciso
diamante lapidado de grafite
bruta matéria a conduzir o riso do dia

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

2434. Noturno

o ardil da noite
é essa pretensa
indefinição das
formas
isca perfeita
para as presas
néscias
que avistam
o desejo
em qualquer
objeto adjeto
estratégia abjeta
dessa noite
que te caça sem fim

2433. Noturno

no turno noturno
o trabalho é esse
de quem chora
séquito dos faltosos
e embebidos de
saudade
turba dos que
amam sem objeto
possível
horda que respira
o gosto afável
da auto-traição

2432. Noturno

No fundo eu tento acabar com essa tristeza
acariciando os cacos da garrafa de pinga
quebrada dentro da bolsa

beijando voluptuosamente o ar que ainda resta
dentro da noite

sumindo dentro
subindo fora

liquefeito nos poros da noite
percolado nos vãos da terra firme
erosivo e turbrilhante morrendo a carne
feita água
sob o véu esperado da noite

2431. Noturno

deixa-me a tristeza
ofuscar-me dentro da noite
sem signo ou significado
líquido desaguado
pela brecha do esgoto

2430.

quero sim perder
o que me restou de cabeça
e viver qual mula sem
meio cavalo meio homem
seta em riste ao alvo
impossível
troteando léguas
impossíveis
sem cabeça mesmo
fogo nas ventas
para encontrá-la
dentro de si mesma
e convidá-la a passear
pelos rumos do impossível
mãos dadas numa noite
possível
compartilhar-te toda parte que se pode
desse meu mundo de alguém
sem cabeça

2429.

que desgosto esse entulhado nos olhos
quase a desabar tudo por sobre a cara
a doer nos poros da noite
deixando o desejo para algum dia

que anseio faltoso faiscando os ânimos
desbotando toda cor do dia
pesando o universo às costas vagaroso
e essa distância que só lateja o desejo

2428.

gostar dói
gasta o espírito
envelhece a alma
coisa como
que a maturidade
te ensinando a
doer mais um pouco
pra fazer da distância
um norte possível
e quente dentro
do peito

2427. Imprecisão

as imagens dizem esse tanto
que a superação da condição
fica sempre apregoada
a um futuro torpe
e a gente é só uma imagem
chuviscada numa tela convulsa

2426.

cartas leves
de leitura lenta
emocionalmente atenta
parando o caos
para pairar pelo dia
brotando nele pétalas
e poesias
idéias, desejos

esse anseio

2425. Para além dessa coisa toda de beleza

coisa louca
foi quando
para além
da imagem
ouvi essa
intransponível
paisagem
que saia
da sua boca
não de passagem
mas fincada
dentro de si
e não à margem

2424.

Rasgar rodovias
até encontrá-la
mais uma vez:
uma que fosse,
meia que desse,
só pra dissipar resquícios
e gravar melhor
o todo que se deve.

2423.

finito e imperfeito
impetuosamente
carente
o desejo move
as montanhas
da razão
abdica o momento
e lança flechas
rumo ao fim da tensão

2422.

na hora que rolar uma vontade
fica à vontade
pode falar
que aí eu meço o que
sobrou por aqui
e vejo se ainda rola alguma coisa
pra poder rolar

2421. ema ema

a lição é essa
o que vale
é esse velho lema
foda-se o outro
e viva o SEU
problema

2420.

Por amor ou euforia
Queria saber fazer coisas
Que me fizessem querer
Fazer tudo de novo

Não fiz

Agora faço o que se pode
Na tentativa de não
Se perder mais o prumo
Do que se poderia

E grudar o que se pudesse grudar
Brechando onde desse
Fazendo o que se pudesse
E quisesse
E podia
Isso mesmo que pedia
Cálido
Ainda que calado
A feita

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

2419. Dá

O desejo é uma asa
que lhe afaga a
sensação de que SÓ,
com ela, se pode voar.

2418.

o unguento foi
Oyá
o vento vindo
em gotas
almas lavar

Nova Olinda/CE

2417. Haiquase outro

eu rezo pra São Jorge
pra que eu não lance
a lança, só ignore

Nova Olinda/CE

2416. Haiquase

meio hippie
essa prostração
sem pique

Nova Olinda/CE

2415.

tem gente que não dá pra engolir
talvez seja um lance de santo que não se bate
de astro que não se casa
ou de acaso mesmo do mundo
mas fato é que tem gente
que não deveria muito existir
talvez só existir meio
existir pouco
no máximo um tanto
mas fato é que existem esses que
não são tragáveis
esses tão intragáveis
- palavra boa que ela proferiu em boa hora -
aí a gente toma uma cerveja
se lança de corpo e alma sob a mesa
e pensa:
quão preciso é esse ser de bosta
que acha que não ter dignidade própria
é o objetivo de qualquer vivente
sob a terra?

Nova Olinda/CE

2414.

a gente escolhe
rostos e se apega
estupidamente:

ponte para uma
paz impercebida
auto-induzida

ditame de paz

Nova Olinda/CE

2413. Alviçeras

quando o arrebatamento
te arrebenta em pedaços
cinco ou seis mil cacos
você se sente mais apto
e sabe ser vida
qualquer ato falho

Nova Olinda/CE

2412. Desmoronamento

quando se cai
a seca te seca
tanto ao ponto
em que você
vira só lágrimas

Nova Olinda/CE

2411. Levando a noção de beleza ao patamar do desassossego

Sua beleza dói
e é por isso
que eu discordo
do paradoxo
entre prazer
e dor.
Sua beleza
é agressiva
ela explode a
qualquer tentativa
de se olhar.
Sua beleza maltrata,
pisa de salto alto
na cara.
É uma não possibilidade
que existe.
E eu me pego
desacreditado,
pois que pode ser
real a mais profunda
utopia da boniteza.
E isso deixa
como louco qualquer
humano sonhador
e esperançoso.

Por que diabos
mesmo que você existe?

Nova Olinda/CE